quinta-feira, 14 de abril de 2011

BULLYING - ENTREVISTA CONCEDIDA AO JORNAL O JACUÍ


No dia 09 de abril de 2011, protagonizei entrevista à Reporter Daniela Lisboa do Jornal O Jacuí, da cidade do Salto de Jacuí-RS, assunto: BULLYING
 
Psicóloga Joselaine Garcia
Reporter do Jornal O Jacuí - Daniela Lisboa

 Entrevistada:
Joselaine de Fátima Guarda Garcia, Psicóloga, CRP07/18433, formada pela 2ª turma de Psicologia da URI/Campus Santiago/RS, Especializando em Docência Universitária: Atua como Psicóloga Clínica, Organizacional/Trabalho/Escolar, com consultório particular no município de Cruz Alta/RS;

1. O que é bullying?
A palavra bullying é de origem inglesa, adotada em muitos países para definir o desejo consciente e deliberado de maltratar uma outra pessoa e colocá-la sob tensão portanto, refere-se a um conjunto de atitudes de violência física e/ou psicológica de um indivíduo ou grupo para com outro, sendo propositado, repetitivo e sem motivação aparente, havendo um desequilíbrio de poder entre as partes: o agressor e o alvo da agressão.

2. Esta prática é prejudicial às crianças?
Sim, essa prática deixa muitas marcas e as consequências podem ser desastrosas. O bullying provoca danos em todos os envolvidos: agressor, alvo e testemunhas.

3. Quais são os tipos mais comuns?
O bullying pode ser do tipo verbal, quando os agressores empregam apelidos constrangedores, disseminam calúnias ou fazem piadas com características físicas ou comportamentais da vítima.  Pode ser também do tipo físico, quando ocorrem agressões físicas repetitivas como tapas, chutes, empurrões, etc. Neste caso, ainda que as agressões não causem lesões graves, elas têm o intuito de humilhar a vítima, fazendo com que se sinta frágil e inferior.  Há ainda o bullying emocional quando, por meio de fofocas e mentiras, a vítima é colocada em situação constrangedora ou de exclusão social. Hoje temos também o cyberbullying, quando a difamação e as ofensas são cometidas por meio da internet, em sites de relacionamento, por e-mail, etc.

4. Essa prática pode marcar a vítima durante toda a vida?
Sim, o bullying é uma prática maléfica e atrapalha a pessoa na fase de desenvolvimento de suas potencialidades. As marcas que ficam nas vítimas de bullying são muito fortes e infelizmente, na maioria das vezes mudam permanentemente a vida das vitimas. As marcas mais comuns são: Depressão, baixa auto-estima, muita dificuldade em relacionamentos sociais e muitas vezes transtornos de ansiedade se instalam, sentimento negativo relativo a si próprio, comportamentos agressivos e em casos extremos, suicídio e homicídio.

5. Uma criança que pratica o bullying na infância pode se tornar um adulto agressivo e violento?
Sim pode, se a criança já tem tendência à violência na infância ela pode se tornar agressivo na fase adulta. Mas devemos salientar que a vítima de bullying também pode tornar-se um agressor, pois uma das formas de escape do sofrimento é praticar a agressão contra outra pessoa, mais frágil que ela, criando um ciclo vicioso e muito prejudicial.

6. Você acredita que a maioria das pessoas foram influenciadas pelo bullying?
Sim, o bullying não é um fenômeno moderno, essa prática já existe há muito tempo, mas apenas agora vem sendo reconhecido como causador de danos e merecedor de medidas especiais para sua prevenção e enfrentamento.

7. Qual a relação entre a criminalidade e o Bullying na adolescência?
Um estudo publicado recentemente na revista científica Personality and Individual Differences revelou que adolescentes vítimas de bullying são mais propensos à delinquência que os praticantes de bullying, de certa forma, o próprio bullying já é um tipo de criminalidade, o bullying pode desencadear um crime maior, pois a vítima pode assassinar e/ou suicidar-se, como já é fato em outros países, no entanto não podemos fazer uma relação direta entre criminalidade e o bullying, pois o comportamento agressivo de adolescentes tem sua origem na infância, exemplos agressivos de solução de conflitos ou problemas são as vezes transmitidos aos filhos pelos próprios pais.
As crianças tendem a se comportar em sociedade de acordo com os modelos domésticos. Muitos deles não se preocupam com as regras sociais, não refletem sobre a necessidade delas no convívio coletivo e sequer se preocupam com as consequências dos seus atos transgressores, Valores como direitos iguais, cidadania, respeito ao próximo, frequentemente não são observados dentro da família. Adolescentes que sofreram violência na família, ou presenciaram atos de violência entre os pais, podem ter condutas agressivas na escola e na vida bem como crianças super protegidas pelos pais ou legadas ao abandono podem também demonstrar condutas delinqüentes, como já dizia Winnicot o ato transgressor nada mais é do que um pedido de socorro.

8. Qual é o trabalho que o psicólogo desempenha para ajudar a ultrapassar este problema?
Pensar numa intervenção para o agressor, vitimado e família é pensar na promoção da sua saúde. O bullying, antes de ser uma questão legal, é uma questão de saúde.
O papel do psicólogo é diagnosticar os casos e trabalhar os envolvidos: Agressor, vítima e familiares, bem como investigar a realidade escolar/familiar pois só é possível compreender e trabalhar o bullying se conhecermos o contexto social em que este ocorre, pois cada caso é um caso, o motivo originário na escola X não é o mesmo da escola Y, destarte é necessário uma investigação do contexto, do cenário e dos atores.
Cabe ainda ao psicólogo estimular a mudança de olhar, ele deve quebrar as barreiras e os paradigmas existentes e possibilitar uma mudança de comportamento e de atitudes eficaz. A mudança de olhar possibilita a transformação da realidade.
Com relação às vitimas é necessário acolher a violência, dar continência aos pacientes, compartilhar outras experiências do mesmo tipo de agressão, compreender o que sente, e a partir deste sentimento buscar instrumentos para "dar a volta por cima", possibilitar a busca por talentos, estimulando-os favorecendo com isso o poder de resiliência de cada um, Buscar junto aos envolvidos possibilidades para reverter as situações de bullying,  compreendendo os sentimentos envolvidos.
Já em relação ao agressor é mister, acolher a violência e a agressividade, dar continência aos pacientes agressores, compreender como se sentem os agressores, e a partir deste sentimento buscar instrumentos para evitar tal agressão, possibilitar novas formas de se relacionar com o que é diferente, um novo jeito de estar em grupo, se destacando pelas qualidades próprias e não o desvalor do outro.
Muitas são as intervenções que poderão ser feitas pelo profissional Psicólogo.

9. E os pais? Em que medida os pais podem intervir para esta problemática?
Os pais têm um papel extremamente importante em termos de medidas preventivas. Essencialmente, não podem desresponsabilizar-se do seu papel enquanto “pais”, é imprescindível o “olhar” para o filho. A família deve assumir o seu papel de formadora de cidadãos, abandonando posturas super protetoras, cegas sustentadas na crença que amar é aceitar toda e qualquer atitude dos filhos, atender todos os seus desejos, não repreender, não responsabilizar. Cabe à família a afirmação ética dos filhos, a firme não-aceitação do desrespeito dos mais velhos e mais fracos. À família cabe criticar o que deve ser criticado, com justiça e compreensão, sem nunca esquecer a ajuda que cada um precisa, quer seja vitima, agressor ou testemunha.

10. Como eles podem reconhecer esse problema?
Tanto a escola quanto os pais têm de ficar atentos às mudanças de comportamentos das crianças e dos jovens. Não se muda sem motivo, tudo tem uma razão de ser, portanto deve-se atentar para alteração no comportamento social da criança/adolescente, como tendência ao isolamento, mudanças no comportamento emocional e afetivo; queda do rendimento escolar, recusa em frequentar a escola; sintomas psicossomáticos recorrentes. Claro que a presença desses fatores não determinam que o individuo esteja sofrendo bullying, mas devem ser ponderados como indicativos para uma maior atenção/observação.
11. O bullying se caracteriza apenas entre alunos ou abrange os demais relacionamentos em uma comunidade escolar, como professores, coordenadores e demais responsáveis?
Adolescentes e jovens reparam nas mínimas “imperfeições” e não deixam passar nada, há casos que inclusive professores, e demais membros da escola são vítimas. É preciso deixar claro que o termo Bullying refere-se aos atos agressivos, intencionais e repetitivos praticados por crianças e adolescentes. Já no mundo dos adultos, costuma-se empregar o termo assédio moral ou mobbing. Essa diferenciação é feita para melhor compreender o fenômeno e diferenciá-lo das demais formas de violência que ocorrem na escola ou fora dela.

12. As comunidades escolares estão preparadas para lidar com o bullying? Há dicas nesse sentido?
A discussão do assunto mesmo em outros países é relativamente nova pouco mais de 15 ou 20 anos. No Brasil estamos começando a encarar o problema, acredito que as escolas vêm se preparando sim, a passos lentos, mas creio que está se “olhando” para a situação, o que já é um avanço, pois até certo tempo atrás os casos tendiam a ser abafados, uma vez que eles podem representar um “aspecto negativo” na boa imagem da instituição de ensino.

Quanto à dica não existe receita pronta para tal situação, mas o primeiro passo é o reconhecimento pela sociedade, pelos pais e sobretudo pelas escolas de que o bullying existe, é danoso e não pode ser admitido;
O professor deve estar sempre atento para detectar indícios de que tal prática possa estar ocorrendo o professor também deve trabalhar em sala sobre as diferenças que existem entre as pessoas, desenvolvendo nos alunos valores como a compreensão e o respeito.
Os pais devem atentar para o dialogo e “olhar” para seu filho, pois não importa o tempo que disponho, mas a qualidade deste tempo, muitas vezes cinco minutos direcionada a seu filho vale sua vida!